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Misterios
A DAMA DAS ORQUÍDEAS
PRIMEIRA PARTE
Tudo começou na madrugada de 31 de Dezembro de 1986 quando Bill Martin, Dennis Blank e Irwin Soyer deixaram o Master Club Disco, o único reduto de diversão para os jovens de Idaho Springs.
Bill, você ainda vai levar um tiro qualquer dia desses. disse Irwin Ouça bem o que eu lhe digo.
Bill estava bêbado. Brigara e ficara com o olho esquerdo roxo.
Mas o que eu fiz de mais?
Você apenas passou a mão na garota do cara mais forte da cidade. Disse Dennis.
Cara mais forte! Que cara mais forte? soluçou Eu lá tenho medo de cara forte? Ele é forte, mas não é dois.
Cale-se, Bill! Seu bafo está insuportável.
Ah, não enche! Vocês estão parecendo minha mãe. É isso aí! Iguaisinhos a minha.. soluçou ..mãe.
Bill mal conseguia andar. Irwin e Dennis abraçaram-se a ele, um de cada lado. Tiveram de carregá-lo. Bill morava a sete quarteirões do clube. A noite, ao que tudo indicava seria longa. Muito longa.
Os relógios marcavam 2 horas da madrugada. As ruas estavam desertas. O silêncio que fazia era quebrado apenas pelos sons de quatro passos firmes e dois se arrastando sobre o asfalto úmido. No céu havia uma lua cheia, linda, enorme, mas que de minuto a minuto era coberta por nuvens negras.
De repente derrubam Bill. Isso porque Irwin foi para a direita e Dennis para a esquerda.
Hei, aonde você ia? Perguntou Dennis a Irwin.
Pensei em cortar caminho.
Ficou louco? Você sabe onde teremos de passar indo por este lado?
Claro que sei, pelo Bosque das Orquídeas. E daí?
E daí? E daí que eu não passo naquele lugar esquisito numa hora dessas...
Então você vai carrega-lo sozinho.
Hei, ninguém vai me ajudar a levantar? disse Bill esparramado ao chão.
Você nos deve uma, cara. disse Dennis, olhando de forma irada para Bill Ah se deve! e olhou para Irwin. Ok, cortaremos caminho.
Há fantasmas por lá! disse Bill repentinamente.
O quê?
Adoro Gasparzinho! Vocês não?
Dennis e Irwin riram.
Passados 2 quarteirões chegaram ás proximidades do Bosque das Orquídeas, uma entre as muitas obras inacabadas em Idaho Springs. Fora construído em uma péssima localização. Distante do centro e de tudo. E má iluminação. O projeto quase fora abandonado no início, se não fosse por um estranho fenômeno, que até hoje, ninguém explica: uma enorme quantidade de orquídeas começaram, da noite para o dia, a crescer e a infestar os quatro cantos do bosque. Ninguém soubera explicar de onde vieram as flores. O bosque ficara com um aspecto tão agradável e bonito que o prefeito resolveu continuar com os investimentos. Mas não o suficiente para concluí-lo.
Puxa....como é escuro por aqui! disse Dennis.
Acho que se passarmos por dentro do bosque levaremos a metade do tempo.
O quê? Entrar aí? Agora você pirou de vez!
Dennis, o que há? Está ficando efeminado?!
Idiota!
Venha, vamos ver se o portão está aberto.
É lógico que o portão não está aber...
Irwin empurrou o portão. Estava aberto.
O interior do bosque era terrivelmente escuro. As luzes que vinham dos postes ao seu redor não ajudavam quase nada. Apenas faziam-lhes enxergar as silhuetas das folhagens e das árvores. Enquanto caminhavam, ouviam o som irritante dos sapatos sobre as pedras do caminho e um estridular incessante.
Hei! Ouviu isso? disse Dennis olhando assustado para os lados.
Não ouvi nada. Você está imaginando coisas.
Continuaram a caminhar. De repente, uma voz feminina a cantar pôde ser claramente ouvida.
E então? É a minha imaginação novamente?
Cale-se! Deixe-me ouvir.
O som ficou bem perto. Via-se apenas um vulto, em meio á escuridão. De repente o local começou a se iluminar. Era um lampião. Uma linda jovem o segurava.
Caras, eu devo estar muito bêbado. disse Dennis. Estou vendo coisas.
A garota possuía uns 20 anos, 1.87 de altura. Cabelos loiros bem longos, com algumas tranças. Pele branca como a neve. Olhos esbugalhados e vivos como os das garotas espertas. Sobrancelha fina e puxada. Nariz pequeno e arrebitado. Lábios finos, sem sinal de batom. Usava um vestido branco até o joelho, o decote era delicadamente provocante. Os pés, pequenos, estavam nus. Na mão direita segurava um cesto de palha.
A garota sorriu.
Quem é essa gostosa? disse Bill.
Perdoe-me, senhorita. Meu amigo está completamente bêbado. olhou para Bill e murmurou-lhe: Fique quieto!
A moça apenas sorria.
O que uma garota faz aqui uma hora dessas? perguntou Irwin.
Meu nome é...Katherine. Desculpe-me se os assustei.
Bom...Katherine, o que faz aqui a esta hora?
Eu estava plantando algumas orquídeas pegou uma do cesto São lindas, não?
Sim, são. Mas é uma hora muito estranha para se plantar orquídeas, não acha?
Não. Segundo as estórias, essa é a hora ideal.
Mas é também a hora ideal dos maníacos e tarados.
Como vocês? disse ela rindo.
Não, é claro que não.
Bom....se não são maníacos e nem tarados, o que vocês fazem aqui?
Levando este beberrão para casa.
Não sou beberrão disse Bill.
Sóbrio como um padre. disse Irwin sorrindo.
A garota sorriu mais uma vez e disse:
Antigas lendas dizem que a cada 10 orquídeas plantadas devemos fazer um pedido à Dama das Orquídeas. fez uma pausa e disse: Vamos lá, façam os seus. Plantei várias orquídeas esta noite. Posso transferi-los a vocês.
Claro! e olhou para um canteiro repleto de orquídeas Acho que vou pedir uma linda Ferrari vermelha. Nem precisa ser zero km. Mas que seja uma Ferrari, hem!
Dennis era um gozador.
Seu sangue por ele?! disse Katherine em um tom de voz anormal.
Oh, sim! ironizou ele. Nem percebeu a mudança na voz.
A Dama das Orquídeas não se esquecerá de você, Dennis. A voz suave voltara.
Precisamos ir sussurrou Irwin a Dennis Não agüento mais segurar este beberrão.
Katherine apontou para Bill e disse:
Esperem. Seu amigo também tem direito a um pedido.
Fica para uma outra hora, temos que...
Bill interrompeu-lhe.
Eu quero você. apontou para Katherine.
Irwin tapou a boca de Bill.
Fique quieto!
Você me quer? Quer dizer...fazer amor comigo? ela sorriu.
Katherine puxou a alça direita de seu vestido e o deixou escorregar pelo ombro. Metade de seu seio ficou à mostra. Em seguida, fez o mesmo com a alça esquerda. O vestido caiu sobre a grama. Não usava nenhuma roupa íntima. Estava nua. Os três até limparam os olhos. Não acreditavam no que estava diante deles.
É esse o seu pedido à Dama das Orquídeas, Bill? disse ela provocantemente.
Bill se desvencilhou de Irwin e Dennis e, cambaleante, caminhou até ela. Lançou um olhar para trás e disse:
Maricas.
Após o que disse, caiu de costas sobre a grama fofa. Katherine aproximou-se e sentou-se com as pernas arcadas sobre ele. Começou a despir-lhe.
Eu não acredito! sussurrou Dennis.
Irwin tomou o caminho de volta.
Eu não vou ficar aqui para ver este showzinho ridículo.
Bill já estava nu.
Espere, Irwin! gritou Dennis Vou com você.
De onde estavam, ainda conseguiram ouvir:
Seu sangue... por ele?
Claro, gracinha! E o que mais você quiser.
Dennis e Irwin apertaram os passos.
Mas que vagabunda! disse Dennis.
É uma pena. Tão bonita!
Realmente. A mais bonita que já vi.
Após saírem do bosque, Dennis e Irwin continuaram juntos por mais três quarteirões, onde se separaram. Dennis, virou à direta; Irwin, seguiu em frente. Após lançar um olhar para trás, Irwin disse a si:
É nisso que dá querer ajudar. e continuou o caminho de casa.
Até que, de repente...
Irwin, espere!
Era Katherine.
Droga! resmungou Irwin. Virou-se para ela e disse: Escute aqui, garota, se você pensa que eu...
O que há com você, Irwin? Está sempre esbravejando, sempre amargo. Você não era assim. Lembra-se?
O que está dizendo? Você nem me conhece. virou-se e tornou a seguir em frente.
São seus pais, não são?
Irwin parou.
Sente muita falta deles, não é? Foi uma tragédia. Deus não foi justo em levá-los tão jovens. Seu pai tinha...43 anos e sua mãe......39. Que lástima.
Irwin virou-se novamente para ela.
Quem é você, realmente?
Gostaria de tê-los novamente ao seu lado, Irwin?
É o que eu mais quero no mundo. disse ele emocionado.
Então peça, Irwin. Peça com todo o amor de seu coração para que isso se realize. Pois há alguém muito especial lhe ouvindo.
Sei. A Dama das Orquídeas. disse em tom de ironia Mas que grandessíssima idiotice.
Peça, Irwin. Peça....por mim.
Está bem, está bem! Parece que você adora ver os outros se ridicularizando. Tudo bem, não serei exceção. Oh! Dama das Orquídeas, traga-me os meus pais de volta.
Um raio vermelho cortou o céu e ouviu-se um estrondoso trovão.
Este é o seu desejo. Seu sangue... por ele?
O que isso signifi...
Apenas responda.
Tudo bem. Sim.
Katherine levou as mãos às costas. Depois, ao mostrá-las novamente, segurava uma linda e perfumada orquídea, que entregou ao Irwin.
Está vendo como ela é real, Irwin?
Sim, estou.
Então, lembre-se, a Dama das Orquídeas também é.
Neste momento um carro em alta velocidade atravessou o cruzamento, atraindo a atenção de Irwin. Quando voltou o olhar para Katherine, esta já estava distante. Seus pés não tocavam o chão. Estavam suspensos uns vinte centímetros do asfalto. Movia-se rapidamente.
Devo estar tão bêbado quanto o Bill. Só pode ser.
Irwin chegou em casa por volta das 5 horas. Estava realmente cansado. Tomou um banho, trocou-se, tomou um copo de leite e desabou sobre a cama. Após o sono, um sonho: estava em uma floresta e ouvia seus pais pedirem socorro. Não conseguia descobrir de onde vinham seus gritos. Saiu à procura, então. Mas a floresta agia contra ele. As imensas árvores pareciam possuir rostos. Rostos horríveis. Seus galhos articulavam-se como braços humanos. O solo era úmido e pegajoso. Caía uma garoa fina e gelada. E os pedidos de socorro continuavam. Mas cada vez mais longínquos. Irwin estava desesperado. De repente, a uns 50 m de distância, apareceu alguém vestindo uma capa negra e usando capuz também negro cobrindo-lhe todo o rosto. Estava montado sobre um unicórnio. Ao vê-los, Irwin começou a correr. Eles vieram à sua captura. As árvores interpunham seus galhos ao seu caminho. Mas livrava-se de todos, habilmente. Só não contava com uma coisa: o solo da floresta se fora. Chegara à ponta de um barranco. Lá embaixo, a uns 15 metros, havia apenas um riacho, de águas escuras e lamacentas. Ao ver que seus perseguidores se aproximavam, Irwin não teve escolha: pulou. A água estava gelada. Cheirava mal. Animais mortos boiavam. A margem estava a uns 10 metros. Nadou o mais rápido que pôde até lá. Olhou a beira do barranco. Estavam lá. De repente, Irwin ouve seus pais a lhe chamar. Pareciam estar perto. Bem próximos. E realmente estavam. Estavam entre as folhagens. A uns vinte metros. Irwin tentou se aproximar. Mas eles se afastavam, e chamavam por seu nome. Seguiu-os, então. Iam a um lugar onde havia uma enorme quantidade de gigantescas árvores. Uma floresta fechada. Onde a escuridão reina soberana dia e noite. Seus pais ali entraram. Irwin perdeu-os de vista. De repente o estranho da capa e capuz negros surgiu bem a sua frente. Irwin se assustou, e caiu para trás. A coisa começou a flutuar e disse, com uma voz velha e cansada:
Concedi-lhe um desejo....e ele foi cumprido.
Irwin se levantou.
Mas como...
Você me prometeu algo....e virei buscá-lo. No décimo dia...do décimo mês...do décimo ano.
A coisa saltou sobre Irwin e arranhou-lhe profundamente o braço. Com o sangue que jorrara ela pintou uma de suas enormes unhas. As outras nove já estavam pintadas, todas com sangue. Suas mãos eram enrugadas, com a pele bem envelhecida. Certamente por debaixo daquela capa havia alguém muitíssimo velho, ou velha.
Agora, você me pertence.
Embaixo do seu corpo, que flutuava, abriu-se um buraco, de onde partiu uma luz intensa e brilhante. Não suportando olhá-la, Irwin fechou os olhos. Ao abri-los, a coisa desaparecera. A floresta desaparecera. Tudo se modificara. Ao invés de uma floresta, havia um lindo jardim com orquídeas. Seus pais estavam ao seu lado, sorrindo.
Irwin acordou. A campainha tocava incessantemente.
Mas que sonho maluco! olhou para o relógio. Marcava 2:30h. Meu Deus!
A campainha tocou novamente.
Oh não! O almoço com a Cindy!
Cindy era sua namorada. Estavam juntos há três meses. Não me pergunte como a conheceu, eu não sei.
Já estou indo!
Quando se levantou da cama, sentiu uma dor no braço. Lembrou-se imediatamente do sonho.
Não pode ser. Isso é impossí...
Levantou vagarosamente a manga da camisa. E lá estava: um corte, já cicatrizado. Mas era o mesmo corte do sonho.
Droga! O que está havendo comigo?
Irwin, eu sei que você está aí! Quer fazer o favor de abrir logo esta porta! era mesmo Cindy.
Irwin correu até a porta e a abriu.
Puxa...mas que demora! esbravejou ela Não me diga que estava dormindo!
Bom....pra dizer a verdade, estava. Acho que é por causa do tempo, durante o frio eu sempre durmo até mais tarde.
O quê? Irwin, está mais de 30 graus!
É mesmo? seu rosto avermelhara-se.
Hum! Você está muito estranho.
Não diga isso. Eu não estou estranho, eu sempre fui estranho. riu, e beijou-a.
Vamos, entre. Já almoçou?
Ainda não. Estou famin...
O telefone tocou.
Atenda pra mim, Cindy. Se for o Sr. Collins, diga que eu me mudei. Aquele desgraçado!
Cindy atendeu.
Alô!.....sim, sou eu! Como está o senhor?.....Ótimo.......Tudo bem, vou chamá-los.
Irwin apareceu à sala, estava terminando de vestir sua calça.
Quem é?
Seu pai.
O impacto foi tão grande que Irwin perdeu o equilíbrio e foi ao chão.
Irwin, você está bem?
Sim...sim, mas quem você disse que era?
Ora, seu pai!
Cindy, isso não é hora pra brincadeiras de mau gosto disse irritado.
Irwin, quer, por favor, deixar de ser idiota e atender logo este telefone!
Cindy, você sabe muito bem que meus pais estão mortos.
O quê? Você enlouqueceu? Irwin, se você não atender imediatamente este telefone, eu...
Calma, vou atender. Quero ouvir a voz do palhaço que está fazendo essa brincadeira de mau gosto. E quando eu pegá-lo!
Irwin atendeu.
Alô!
Alô! Filho, como...
Irwin ficou atônito. Largou o telefone. Suas mãos começaram a tremer. Sua mente parecia querer explodir, tamanha a confusão que nela se formara. Era realmente a voz de seu pai. Não havia a menor dúvida.
O que foi? Por que largou o telefone?
Irwin não disse nada, apenas sentou-se no sofá ao lado da mesinha do telefone e olhava de uma forma distante. Cindy pegou o telefone do chão e tentou dizer algo, mas já haviam desligado.
Irwin, diga-me, o que está acontecendo com você?
O que sabe a respeito de meus pais, Cindy?
Ora, são jovens e muito legais. Não são caretas como a maioria dos pais. Você tem muita sorte.
Irwin não conseguia acreditar. Não era possível os seus pais estarem vivos! A não ser que o que lhe acontecera naquela madrugada fosse realmente verdade. E que o seu desejo fora mesmo realizado.
Acho que estou enlouquecendo, Cindy.
O telefone tocou novamente.
Quer que eu atenda? disse Cindy.
Não. Estou melhor.
Irwin atendeu.
Alô!
O que houve, filho?
Nada demais. Foi apenas....uma maldita abelha. Irwin tinha aversão a abelhas, e sabia que se aquele fosse realmente seu pai, ele também saberia.
Filho, filho! Dezenove anos e ainda não perdeu o medo de abelhas! É. Acho que nunca se esquecerá daquele dia no sítio do seu avô, não é?
Tal lembrança emocionou profundamente Irwin. Não pela lembrança em si. Mas porque a cada minuto, a cada frase, uma coisa ficava clara: aquele é mesmo seu pai. Não sabia como ou porque. Mas ele o é.
Sim, pai. E se não fosse o senhor ter chegado e me socorrido, hoje eu não estaria aqui para contar a estória.
Vire essa boca pra lá!
A mãe está aí com o senhor? Gostaria muito de falar com ela.
Ela foi ao supermercado, filho. Foi comprar algumas coisinhas para a via.....
Vocês vão viajar?
A propósito, foi para isso mesmo que eu liguei: eu e sua mãe estávamos pensando se podíamos fazer uma visita a você. Para conhecermos sua casa.
Mas é lógico!
Ótimo! Sairemos daqui amanhã bem cedo. Filho, você precisa ver! O Azulão está uma beleza, novinho em fo....
Não! gritou Pai, nem pense em ligá-lo!
Irwin, por um instante, viu tudo se repetir: seu pai ligando e avisando que viria visitá-lo e viria dirigindo o Azulão apelido dado ao seu carro, um Dodge azul, ano 57 No dia seguinte, durante a viagem: a tragédia, bateram em um caminhão e capotaram por uma encosta. E foi assim que morreram.
Mas, filho! Ele estava sob os cuidados do melhor mecânico de Den...
Pai, eu já disse! Nem ouse tocá-lo. Eu mesmo irei até aí para buscá-los.
Está certo. Se você quer assim, assim será feito. Mas ainda não entendi o porquê de toda essa preocupação.
Mas eu sim, pai. E como entendo!
Bom....acho que é só. Cuide-se, filho. Tchau!
O senhor também, pai. Tchau.
Ambos desligaram.
Vêem visitá-lo? disse Cindy.
Sim, amanhã.
Que bom!
Irwin e Cindy saíram para almoçar. Foram até um restaurante recém-inaugurado, em frente à praça. O ambiente era agradável e calmo. Apenas cinco, das quinze mesas, estavam ocupadas. Ouvia-se um Blues da melhor qualidade. Comeram macarronada e tomaram um pouco de vinho.
Após almoçarem, resolveram dar uma volta pela praça.
Cindy, acreditaria se lhe dissesse que hoje é um dos dias mais felizes de minha vida?
E por que não? Você tem a mim!
Riram.
De repente, à rua do outro lado da praça, surgiu um lindo automóvel vermelho. Mais precisamente: uma Ferrari vermelha.
Qualquer dia desses, esse seu amigo atropelará alguém.
Dennis? Aquele na Ferrari é o Dennis?
Ora, e quem mais poderia ser? Sortudo! Eu nunca ganhei nada, nem em bingo. E ele, o que ganhou? Apenas uma Ferrari.
O desejo dele também se realizou sussurrou Irwin a si mesmo.
O que disse?
Eu disse que Dennis é muito sortudo. Foi isso que eu disse.
Susan! gritou Cindy repentinamente, olhando para o outro lado da praça Irwin, acabei de ver uma amiga que não via há muito tempo. Desde que foi morar em Cheyenne. Você se importaria se...
É claro que não. Vá até ela. Ficarei aqui.
Tudo bem, volto já.
Enquanto Cindy atravessou a rua, Dennis estacionou a Ferrari à beira da calçada da praça, onde estava Irwin. Dennis saltou do carro e disse-lhe, com um largo sorriso estampado no rosto:
É incrível!
Estou vendo.
Dizem que eu o ganhei em um concurso de T.V.
Mas nós sabemos o que realmente aconteceu.
Sim......Katherine.
É......Katherine.
Irwin, por acaso você acredita em....anjos?
Não. Por quê? Acha que Katherine seja um?
Bom.....não consigo achar outra resposta.
Eu prefiro continuar sem resposta.
Você também pediu algo a ela?
Sim, meus pais.
E o que aconteceu?
O que acha? Meu pai me telefonou, agora há pouco. Quase morri do coração.
Meu Deus! Estavam mortos, não?
Sim.
Irwin, mas o que acontecerá quando virem duas pessoas, consideradas mortas, andando por aí?
Dennis, não acontecerá nada. Pois da mesma forma que todos pensam que você ganhou essa Ferrari em um concurso de T.V., pensam que meus pais nunca morreram. É estranho! É como se alguém tivesse apagado tais lembranças de suas mentes, e colocado outras.
Isso é verdade. Hoje de manhã disseram coisas a meu respeito que eu não me recordo.
E nem se recordará. Pois só estão nas mentes deles.
Cindy estava vindo.
Dennis, o que nos aconteceu nessa madrugada será mantido em segredo, você entendeu?
Sim, claro! E você acha mesmo que alguém nos acreditaria? Na melhor das hipóteses, internariam-nos em um hospício.
Vamos mudar de assunto. Aí vem a Cindy.
Olá, Dennis!
Oi, como vai, Cindy?
Muito bem.
Ótimo.
Cindy pegou nas mãos de Irwin e disse-lhe:
Minha amiga, Susan, convidou-me para ir fazer algumas compras. Tudo bem?
Claro!
Á noite, você me liga?
Ligo. Pode deixar.
Beijaram-se.
Então...Tchau! disse ela.
Tchau! responderam.
Após Cindy se afastar...
Compras! disse Irwin É só nisso que elas pensam?
É!
Dennis, você já teve notícias do Bill?
Eu não!
Droga! Temos de achá-lo.
Tudo bem. Venha.
Dennis entrou no carro e abriu a outra porta. Irwin entrou.
Puxa....isso é que é carro!
Você ainda não viu esta gracinha correr. É uma beleza!
Foram até a casa de Bill. Mas estava tudo trancado. Então, foram até o bosque. Lá havia apenas
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um casal de velhos. Dennis e Irwin foram até eles.
Boa tarde disse Irwin.
Boa tarde respondeu o velho.
O senhor não chegou a ver, por acaso, um rapaz alto, moreno, usando uma camisa azul e uma calça jeans desbotada?
Não.
Tudo bem, desculpe-me por incomodá-los.
Quando Irwin e Dennis deram as costas.
Hei! Rapaz chamou-lhe o velho.
Os dois voltaram-se novamente a ele.
Ouvi dizer que a polícia esteve aqui pela manhã e levou um rapaz que dormia sobre a grama aqui do bosque.
Irwin e Dennis olharam-se.
Era ele.
Correram até o carro e partiram para a Delegacia. Lá chegando...
O que posso fazer por vocês? disse o delegado. E após olhar bem para Dennis Hei! Você é o cara que ganhou a Ferrari, não é?
Bom....sim! Sou eu.
Vi você na T.V. Você é realmente um cara de sorte. Bom...o que o trouxe até aqui? Não vai me dizer que já a roubaram!
Não. Viemos aqui para saber de um amigo nosso. Seu nome é Bill Martin.
Bill! olhou para um dos guardas que estava na porta e perguntou-lhe: Hei! Peter, como é mesmo o nome do cara que achamos no bosque hoje pela manhã?
Bill. Bill...não sei o quê.
Vocês o prenderam? disse Irwin indignado.
Sim. Estava dormindo em um local público.
Só por isso?
Escuta aqui, rapaz, vá dizer isso aos políticos que vocês mesmos elegeram. São eles quem fazem as leis. Eu apenas as cumpro.
Desculpe-me. Mas pelo menos é afiançável?
Sim. São.... olhou em um folheto 250 dólares.
O quê?
Ou quatro meses de xadrez.
Dennis e Irwin repartiram as despesas. Bill foi solto imediatamente. Ao sair da Delegacia e ver Dennis abrindo a porta da Ferrari, Bill disse:
Hei! Vocês roubam uma Ferrari e eu é que vou preso!
Riram.
Venha, Bill. Temos uma longa estória pra te contar.
Aposto que têm. Mas tem que ser agora? Minha cabeça parece que vai explodir! Maldita ressaca.
Foram até o bosque. Sentaram-se no banco mais próximo do local onde o estranho episódio lhes ocorrera durante a madrugada.
Bill disse Dennis , do que você se recorda dessa última madrugada?
Bom....lembro-me de ter levado um soco. Lembro-me de terem me carregado. E depois eu não tenho mais certeza, acho que sonhei ter transado com uma loira gostosa e...
Dennis e Irwin riram descontroladamente.
O que aconteceu? Vocês não têm sonhos eróticos?
Bill, isso não foi sonho. Você transou mesmo com ela.
O quê?
Dennis, vamos contar logo o que aconteceu.
Certo. Bill, pode parecer loucura o que eu vou lhe contar, mas acredite, é a mais pura das verdades.
Dennis contou-lhe tudo o que aconteceu naquela madrugada. Nos mínimos detalhes.
Vocês beberam, não é?
Nem um gole.
Mas não é possível!
Bill, Dennis apontou para a Ferrari Não é possível?
Sei que é difícil de acreditar, Bill. Entendo perfeitamente o que está pensando. Mas acredite, está realmente acontecendo. Não sei como e nem por que. Mas nossos desejos foram realizados.
Mas que Droga! Quer dizer que você teve seus pais de volta, Bill ganhou uma super Ferrari vermelha. E eu ganhei.....uma transada? Droga!
Que aliás, foi bem curtinha, hem! disse Dennis.
Não enche! Eu estava bêbado, lembram-se?
Uma loira andando de patins adentrou o bosque.
Hei! Vejam! disse Dennis apontando-a.
Acha que seja ela? Katherine! disse Irwin.
Quem é Katherine? disse Bill.
A garota passou rapidamente por eles. Não era Katherine.
Bom....parecia. disse Dennis, ainda olhando-a.
Após alguns segundos sem se falarem...
Tive um sonho assustador disse Dennis. O mais real que já tive.
Eu também! disse Irwin Havia um cara estranho, todo de preto.
Hei! Você também o viu? disse Bill O desgraçado tinha as unhas...
Pintadas com sangue. disse Dennis Sei do que estão falando, eu também o vi.
Hei! Esperem um pouco. disse Bill Não estão percebendo nada de estranho? É impossível termos sonhado com a mesma coisa.
Irwin ergueu a manga da camisa e mostrou-lhes o corte.
Impossível ou não, aquela coisa maldita me acertou.
Então aconteceu com você também! disse Bill mostrando-lhes um corte idêntico ao de Irwin.
E comigo também. disse Dennis.
Os três possuíam o mesmo corte.
A partir deste dia, disse Irwin este episódio ficará esquecido. Não diremos nada, absolutamente nada, a respeito disso. Será segredo nosso. Somente nosso. Vocês concordam?
Sim responderam.
Após esse dia, os três continuaram juntos por dois anos. Irwin casou-se com Susan, aquela, a amiga de Cindy. Esta cometera um erro a apresentá-la a Irwin. Foi amor à primeira vista. Juntos tiveram duas filhas: Michelly e Karen. Juntamente com seus pais, sua esposa e suas duas filhas, Irwin mudou-se para Cheyenne. Lá um cargo já lhe esperava, o de gerente de uma empresa de sapatos, pertencente ao pai de Susan. Cinco meses após a partida de Irwin, Dennis vendeu sua Ferrari para um expositor. Com o dinheiro, resolveu conhecer o mundo. Partiu rumo a América do Sul, onde ficaria algumas semanas. Depois embarcaria para a Europa, um de seus maiores sonhos. Bill foi o único que permaneceu em Idaho Springs. Herdou o pequeno supermercado de seu pai, que falecera alguns dias após a viagem de Dennis.
*
SEGUNDA PARTE
8 de Setembro de 1995
O telefone toca no escritório da pequena empresa de calçados, agora, de Irwin.
Alô!
Irwin?!
Bill? É você?
Sim! Puxa...há quanto tempo!
Sim. Como está, Bill?
Ótimo. E você?
Estou bem.
Irwin, vou me casar.
É mesmo? Quem diria! Logo você que sempre dizia que casar era a maior caretice!
É....mas o tempo passa e a gente logo abandona duas princesinhas?
Estão ótimas.
Irwin, quero vocês quatro aqui no meu casamento, certo?
Com todo o prazer. Mas quando será?
É justamente sobre isso que eu iria lhe falar. Irwin, o casamento está marcado para o dia 13. Mas eu gostaria muito que você viesse para a minha despedida de solteiro, que será amanhã.
Amanhã? Bill, não sei se poderei estar aí amanhã.
Por favor! Irwin, iremos nos divertir pra valer.
Bill, sou um homem casado. Acho que não fica bem pra mim....
Irwin, não tem nada de mais nisso. Venha, Irwin! Você não sabe como eu sinto a falta de você e do Dennis.
Dennis! Tem notícias dele?
Notícias dele? Ah, sim. Está em.....Paris.
Puxa....que vida emocionante a dele, não acha?
Sim, realmente.
A voz de Bill, quase chorando, sensibilizou Irwin.
Bom....vou fazer o máximo que posso para estar aí amanhã, Bill.
Estarei esperando, companheiro.
Após inventar uma história para Susan, dizendo que ia até Lakewood para tratar pessoalmente com um dos fornecedores da empresa, Irwin retirou seu conversível da garagem e partiu para Idaho Springs logo pela manhã. Foram quatro horas e meia de viagem. Ao chegar, sentiu uma enorme sensação de estar em casa. Era impressionante! Esta fora há sete anos e a cidade continuava a mesma. Com raríssimas exceções. Em frente ao supermercado, fechado, estava Bill. Irwin estacionou a sua frente.
Irwin, sabia que viria!
Irwin desceu do carro.
E por que não?
Abraçaram-se.
Vejo que engordou um pouco disse Irwin olhando-o de cima a baixo.
Um pouco. Já você não mudou nada, a não ser....pelos óculos. Está parecendo um catedrático.
Bill olhou o conversível.
É seu?
Sim, gostou?
Muito bonito. Não é pra qualquer um. Diga-me, Irwin, o que faz? Entrou para a política?
Não, continuo com a pequena empresa de sapatos. Depois que o pai de Susan adoeceu, eu assumi o comando e fiz algumas mudanças.
Puxa....deve estar vendendo à beça!
Não posso me queixar. Ainda não tenho tanto dinheiro quanto você, mas.... um dia eu chego lá.
Não diga uma coisa dessas. Quem disse que eu tenho muito dinheiro?!
Foram até a casa de Bill. Ou melhor, até a mansão de Bill. Era, sem dúvida alguma, a maior de toda Idaho Springs. O jardim era quase do tamanho do bosque. A piscina era duas vezes maior que a do clube. Tudo isso era cercado por um muro reforçado, de aproximadamente 3,5m de altura. Apenas sua localização não era das melhores; ficava um pouco afastada do centro.
Bill, você tinha razão: quem foi que disse que você tem muito dinheiro?
Riram.
Um carro entrou.
Não podia ser em melhor hora. disse Bill. Voltou-se para Irwin Venha, quero que veja como Sarah está ainda mais linda.
Sarah estacionou o carro ao lado de outros três, e encontrou-se com Bill e Irwin. Ela estava realmente linda. Estava mais encorpada. Tornara-se uma uma mulher deslumbrante.
Como está, querida?
Bem. Fui ver como está o vestido.
Beijaram-se.
Lembra-se do Irwin?
Claro. cumprimentou-o Como vai, Irwin?
Bem, e você?
Eu estou ótima! E como vai sua esposa? perguntou-lhe com desdenho.
Muito bem.
É....em matéria de amizade, minha irmã estava muito bem servida.
Já que falou, como está a Cindy?
Ótima. Está trabalhando em Nova Iorque.
Que bom!
Percebendo que o clima entre Irwin e Sarah não estava muito bom, Bill resolveu intervir.
Bom....Irwin e eu vamos dar uma volta pela cidade. Vou mostrar-lhe as novidades. Vejo você no jantar, querida.
Beijou-a.
Foi um prazer revê-la, Sarah.
Igualmente.
Assim, os dois saíram para dar uma volta. Não foram no conversível de Irwin, e sim na Pick-up de Bill.
Tração nas quatro rodas?
Sim, adoro esta gracinha. Mas...mudando de assunto, Irwin, queria te pedir desculpas pelo comportamento de Sarah. Ela não fez por mal. Você já deve imaginar o que a Cindy falou de você para ela, não é?
Não esquenta, Bill! Não precisa se desculpar.
Você sabia que desde que você largou a Cindy, ela não ficou mais com ninguém?
Sério?
Após almoçarem, percorreram os quatro cantos da cidade. Ao entardecer, voltaram para a mansão.
Há um bilhete pra você aqui na sala, Bill.
Já vou! gritou Bill, da cozinha.
Ao chegar na sala, leu o bilhete.
Sarah foi a Stanfield fazer algumas compras para a festa. estampou um largo sorriso É isso aí! Sairemos daqui mesmo.
Do que está falando?
Hoje á noite iremos a um clube de Strip-tease.
Bill, você não mudou nada. Quer dizer, quase nada. A barriga cresceu um pouco.
Quando a noite chegou, os amigos de Bill começaram a chegar. Eram onze, ao todo. Irwin conhecia apenas três. A despedida de solteiro estava para começar. Bill acomodou cinco na traseira de sua Pick-up. Irwin foi ao seu lado na cabine. Os outros seis foram em um furgão. O clube ficava em uma cidade vizinha. A menos de vinte minutos de Idaho Springs. Lá divertiram-se muito. Irwin nunca tinha ido a um lugar como aqueles. Nem quando jovem.
Veja aquela morena ali! gritou Bill a Irwin. Que obra da natureza, hem!
É.
Anime-se, Irwin! O que há com você?
Lembrei-me de Susan.
Irwin, você não está traindo ninguém! Olhar não é pecado.
Bill bebera um pouco, mas estava sóbrio. Irwin não tomara um gole sequer. Já os outros, estavam quase todos bêbados. Por volta das 11 horas, eles tomaram o caminho de volta. Ao chegarem na mansão, caíram todos à piscina. Estava muito calor. Bill e Irwin ficaram apenas vinte minutos. Os outros permaneceram.
Após subirem aos seus quartos e se trocarem, Bill e Irwin encontraram-se na sala.
Que noite, hem! disse Bill sentando-se no sofá.
Irwin sentou-se em uma poltrona à sua frente.
Você vai sempre lá?
Não.
Bill mudou repentinamente de expressão. Parecia entristecido.
O que há, Bill?
Irwin, não posso esconder isso de você.
Mas esconder o quê?
Espere um pouco.
Bill subiu as escadas. Dois minutos depois, voltou. Trazia um envelope consigo.
O que é isso?
Irwin, lembra-se do que eu lhe falei a respeito do Dennis?
Sim, disse-me que está em Paris. E daí?
E daí que.... seus olhos encheram-se de lágrimas ..eu menti. Irwin, Dennis....está morto.
Irwin ficou pasmo. Não acreditava no que ouvira.
O quê? e puxou o envelope das mãos de Bill E quando foi isso? retirou a carta de dentro do envelope e começou a ler:
Paris, 9 de Agosto de 1994
Faz mais de um ano?
Bill respondeu-lhe apenas com uma aceno de cabeça. Estava chorando. Irwin continou:
Meu nome é Jennifer Craighan, sou americana, de New Jersey. Conheci Dennis, acho que por ironia do destino, aqui em Paris. Dennis era uma pessoa maravilhosa. Falava-me muito a seu respeito e de Irwin, mas não consegui o endereço deste. Está sendo muito difícil escrever esta carta. A tristeza tomou conta de mim. Mas achei que não seria justo esconder a verdade. Dennis Blank, nosso querido amigo, faleceu ontem, dia 8 de Agosto de 1994. Não sei lhe dizer como e nem por que. Afinal, nem a polícia parisiense sabe. Acho melhor parar por aqui, a fim de não chocá-lo mais ainda.
Solidariamente, Jennifer Craighan
Oh meu Deus. Dennis tinha a minha idade.
Morreu aos 27 anos.
Essas notícias mexem com a gente.
Ficaram alguns minutos em silêncio. Irwin não tirava os olhos da carta. Lia e relia.
Irwin, desde que Dennis morreu, venho tendo pesadelos todas noites. E todos eles com aquela coisa. Aquela coisa com a capa.
É mesmo? E ele lhe diz alguma coisa?
Sim. E sempre a mesma coisa. Diz que eu sou o próximo.
Irwin olhou para o pedaço da carta em que mostra a data da morte de Dennis.
Irwin, são pesadelos horríveis. continuou Bill Ouço vozes pedindo socorro. Inclusive a voz de Dennis.
Não pode ser! disse Irwin repentinamente.
O que houve?
Bill, fizemos aquele juramento no ano de 1986, certo?
Sim, acho que sim.
Então ele disse a verdade! Oh meu Deus.
Eu não te entendo, Irwin! O que há?
Bill, em que dia Dennis morreu?
Oito.
De agosto. Agora diga-me, Agosto é mês...?
Bill contou os meses nos dedos.
Oito.
Dennis morreu em 1994. De 1986 até 1994 passaram-se...?
Oito anos. Mas eu ainda não te entendo!
Bill, Dennis morreu no oitavo dia...do oitavo mês...do oitavo ano.
Sim, uma coincidência.
Tenho razões para achar que isso não foi coincidência. Lembra-se daquela tarde no bosque em que falamos a respeito de nossos sonhos?
Sim, e daí?
E daí que eu não contei tudo. Não me lembrava direito desta parte. Mas agora eu me lembrei. Lembrei-me claramente.
Lembrou-se do que, Irwin?
A coisa com a capa negra. Disse que viria atrás de mim. E seria no décimo dia...do décimo mês...do décimo ano.
Irwin, os números da data da morte de Dennis foram apenas coinci...
Oh meu Deus! Bill, hoje é o seu di....
Uma garotinha de aproximadamente 9 anos entrou na sala. Tinha os cabelos cacheados e um rostinho de menina levada. Usava um vestidinho xadrez e calçava uma sandália branca.
Quem é você? perguntou Bill à garotinha.
Christy.
Após responder, ela correu até Bill e o abraçou.
Papai!
Você tem uma filha? perguntou Irwin.
Claro que não! olhou para ela Hei! Eu não sou seu pai. Bem que eu gostaria, pois você é muito bonitinha. Mas eu não sou.
É sim. insistiu ela.
Christy, fale pra mim, quem mandou você vir até aqui e me dizer isso? Se me contar, eu te darei um montão de doces.
As luzes se apagaram.
Hei! Quem fez isso? disse Bill.
De repente uma luz intensa começou a se aproximar. Todos ali fecharam os olhos. Quando abriram-nos, ali estava, bem à frente: a criatura da capa negra. Flutuava.
Esqueceu-se de sua filha, Bill? Mas que pai é você!
Riu sarcasticamente.
Mas...mas... Bill estava muito assustado.
Irwin assistia a tudo boquiaberto.
Você me pertence, Bill. Eu lhe concedi um desejo e o realizei. Você me prometeu algo em troca. Hoje é o dia de entregá-lo.
Bill saltou do sofá e foi em direção a uma mesa cheia de gavetas. Lá havia um revólver. Mas a criatura não permitiu que ele chegasse até lá. Com um movimento de braço, paralisou-o.
Oh meu Deus! gritou Irwin.
A criatura riu.
Chame! Chame por seu Deus! Se ele for tão bom como dizem, aparecerá. e riu novamente.
Aquele maldito capuz negro. Irwin daria qualquer coisa para ver o que se escondia por de baixo dele. Tentou gritar pedindo socorro. Mas era estranho, não tinha forças para gritar.
A criatura apontou para a garotinha e disse-lhe.
Alimente-me.
Neste momento, Christy começou a se transformar em uma criatura horrível. Sua pele enegreceu e parecia estar rija. Seus cabelos caíram todos. Seus olhos pareciam-se com duas pequenas bolas de fogo. Seu nariz caíra. Sua boca alargou e muniu-se de enormes e afiados dentes, negros. Suas orelhas encumpridaram-se e parecia-se com chifres. Suas mãos e seus pés transformaram-se em garras. O vestido xadrez que usava, rasgou-se todo. Olhava para Bill como um leão faminto olha para uma gazela. Era de arrepiar.
Estou faminta. disse a criatura, com uma voz fraca.
Imediatamente, aquele pequeno monstro saltou sobre Bill. Atacou-lhe de todas as formas. Com seus dentes e suas garras. Bill não conseguia ao menos gritar. Mesmo assim, não conseguiria gritar por muito tempo. Fora dilacerado com uma rapidez e brutalidade descomunais. Havia sangue e pedaços de seu corpo espalhados por todos os cantos da sala. Era estranho, quem realmente estava se alimentando e se apoderando do sangue de Bill, era a criatura da capa. É como se as duas criaturas fossem ligadas. Irwin estava horrorizado.
Que criatura do demônio é você!
Os mortais sempre se renderam, rendem-se, e sempre se renderão à Harpia, a Dama das Orquídeas.
Após estas palavras, as duas criaturas desapareceram. Não havia, sequer, uma gota de sangue. Fora sugado todo. Havia apenas pedaços do corpo de Bill. Todos brancos e com marcas de ferozes mordidas.
Nããããããão!
Alguns minutos depois, Call Mulder entrou e acendeu as luzes. Call era um dos que estavam na piscina.
Jesus Cristo! Mas o que houve aqui?! olhou para Irwin Assassino!
Hei! Está achando que fui eu? Está louco?
Você é que está louco! E ferrado, cara.
Irwin levantou-se.
Hei! Não se mexa! disse Call Você terá que se explicar com a polícia. Oh meu Deus! olhou o rosto dilacerado de Bill Você é doente, cara!
Entenda, Call, você acha que eu teria feito isso?
Então quem foi? disse sarcasticamente.
Você nunca acreditaria. Mas seu idiota! Veja só, não há uma gota de sangue! Acha que um ser humano seria capaz de fazer isso?
Não me interessa. Só sei que você vai se ferrar na cadeia. pegou o telefone.
Neste momento, Irwin correu e saiu pela porta da sala.
Hei! Seu filho da mãe! Não vai escapar!
Call largou o telefone e saiu atrás de Irwin. Este já estava no jardim, estava indo em direção a garagem, onde está o seu carro. Mas, no meio do caminho, foi alcançado por Call, que o agarrou. Caíram sobre o gramado do jardim. Ao se levantarem, começaram a lutar. Call desferiu-lhe um soco violentíssimo, mas pegou de raspão. Já o de Irwin em Call, não. Foi um belíssimo cruzado de direita. Nocauteou-o. No momento em que Irwin entrara em seu carro, Call se levantou e começou a chamar seus amigos. Irwin deu a partida no carro e saiu feito um foguete. Derrubou quatro vasos com flores e duas pequenas estátuas de anjos. O portão estava fechado. Mas Irwin não tinha outra alternativa a não ser ir de encontro a ele. E foi isso que fez. Conseguiu passar, mas provocou um enorme estrago em seu conversível. Virou à direita. Sem saber por que. Mas virou. Seguindo nesta direção ele sairá na estrada de acesso a floresta. A quinhentos metros atrás, vinham em sua captura um Furgão, um Duster e um Lemans. Tal distância manteve-se constante até a estrada à beira da floresta. Mas o álcool do conversível estava para acabar. Irwin não iria se entregar de jeito algum. Ele não era culpado. Então, teve uma idéia; a estrada por onde passava naquele momento era à beira de um desfiladeiro. Irwin reduziu a velocidade e parou de frente para ele, desceu e empurrou o seu conversível, que comprara com um enorme sacrifício. O carro despencou. Explodiu ao chocar-se lá embaixo com um amontoado de pedras. Os três carros se aproximavam. Irwin se escondeu em meio as folhagens. E viu quando eles passaram por ele. Estacionaram adiante. Irwin não pôde ouvir o que diziam, exceto o que um deles disse: Está morto. Os três carros passaram novamente por ele. Voltavam. O plano dera certo.
Irwin passou a noite na floresta. Ao amanhecer, ficou á beira da estrada para pedir carona. Era difícil. O movimento de carros era baixo. Mas, de repente, apareceu uma camionete e parou. Um senhor de 60 anos a dirigia. Levou-o até Littleton. Mas o dinheiro que tinha não daria para pegar um ônibus até Cheyenne. Então, tomou outra carona, até Lakewood, de onde conseguiu pegar um ônibus. Lá chegando, procurou por seus pais, que na verdade, não eram realmente seus pais, e com uma faca, assassinou-os. De seus corpos não jorraram sangue, e sim uma massa verde e gosmenta. Dois dias depois, prenderam-no.
*
TERCEIRA PARTE
Acabou?
Sim. Foi tudo o que a polícia conseguiu dele. Está tudo gravado.
Mas o que aconteceu com ele? Ainda está preso?
Não, ele ficou preso por apenas seis meses. Começou a ter alguns ataques de paranóia e foi internado.
Mas não dá para entender, se o corpo do tal de Bill estivesse mesmo naquelas condições, uma perícia médica, ou sei lá o quê, identificaria que Irwin não era o culpado. A medicina hoje descobre tudo.
Só que não encontraram o corpo de Bill naquele estado. Quando a polícia chegou até o local, seu corpo estava carbonizado, e não estava aos pedaços. Não foi possível perícia alguma.
E quanto aos pais dele! E a tal gosma verde?
Também encontraram-nos carbonizados.
Então...tudo não passou de uma estória, certo?
Ora, porque não pergunta ao próprio Irwin?
O quê?
Onde acha que ele foi internado?!
Estes são John Flemyn e Paul MacGregor. John é o que contou a estória. Ambos são enfermeiros do Instituto Psiquiátrico de Cheyenne, onde estão trabalhando neste momento. John é um dos empregados mais antigos do Instituto; está até para se aposentar. Paul, ao contrário, está no seu primeiro dia.
Você está brincando comigo! disse Paul.
Não estou. Está vendo aquele moreno com a cabeça raspada? apontou.
Aquele é Irwin Soyer?
Ele mesmo.
Puxa....mas ele não se parece com os outros malucos. Está tão quieto.
Seus ataques são raros. Mesmo assim a polícia achou melhor interná-lo.
John, você acredita nesta estória?
Eu não acredito, mas também não desacredito. Pois se lembre, no dia em que a polícia lhe interrogou, estava mais sóbrio do que nós dois e não apresentava sinal algum de desequilíbrio mental. E tem mais uma coisa; ele passou por aqueles aparelhos que detectam quando você está mentindo.
Logicamente os aparelhos acusaram que era tudo mentira. Certo?
Errado. Noventa e sete porcento do que ele disse o aparelho manteve-se estável.
Mas não pode ter realmente acontecido.
Você pode até ter razão. Mas que há algo de muito estranho nisso tudo, não se pode negar. Lembra-se do tal corte que ele sofreu no braço?
Sim, claro.
Ele ainda o possui.
Mas isso é impossível.
Não é. Eu mesmo já vi. Até hoje, não houve um dermatologista que conseguisse explicar tal fenômeno.
Paul não tirava os olhos de Irwin, sentado em um dos bancos do jardim. Sozinho. Melancólico. Olhando para o céu. Usava um pijama branco e calçava um par de chinelos.
Por que não experimenta levar algumas orquídeas pra ele? disse John rindo.
Você conta esta bobagem pra todos os novatos. Fala a verdade.
Pior que não. Quando ele estava na cadeia alguém lhe enviou um buquê de orquídeas e a partir desse dia ele começou a apresentar sinais de paranóia. Resumindo: foi aí que ele pirou de vez.
O diretor do Instituto apareceu subitamente.
Mexam-se! Vocês não são pagos para fofocar.
Sim, senhor. disseram assustados.
Você deveria servir de exemplo, John. Está me decepcionando.
Desculpe-me, senhor. Isso não se repetirá mais.
Assim espero. deu alguns passos em direção ao seu escritório e disse: Paul, venha, preciso falar com você.
Paul lançou um olhar assustado para John. Este encolheu os ombros.
Feche a porta. disse o diretor, após acender um cigarro.
Paul fechou a porta.
Sr. Diretor, John e eu estávamos apenas....
Eu sei muito bem o que estavam fazendo. colocou o cigarro na boca Mas...não foi para isso que eu lhe chamei. O assunto é outro. Um dos enfermeiros que fazem o plantão, à noite, morreu agora há pouco. Foi atropelado por um ônibus. Dá para acreditar? Um ônibus!
Meu Deus.
Então, gostaria que você assumisse o lugar dele. Não haverá problema, certo?
Pau
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l era novo no cargo, não poderia dizer não pra nada.
Certo, Sr. Diretor.
Ótimo. Qual é mesmo o seu turno?
Das seis da manhã às quatro horas da tarde.
Bom...a partir de amanhã será este: das vinte horas às cinco da madrugada. Bom, é só. Ao sair, feche a porta.
Sim, senhor.
Após sair, Paul fez uma careta expressando o mais profundo descontentamento.
O que ele queria? sussurrou John.
Trocar o meu turno. Mudou-me para a noite.
Ah, fazer o plantão! Rapaz, não tem coisa pior.
O relógio marcava quatro horas. Fim do turno. Mas antes de ir para a casa, Paul passou na secretaria. Gostaria de saber qual seria o seu setor. Pois durante o plantão, cada enfermeiro fica responsável por um setor. Cada setor é formado por quatro quartos, que possuem de três a quatro pacientes, cada.
Paul MacGregor? perguntou a secretária, sentada, frente a um computador.
Sim.
Está aqui. Setor 7. Mais alguma coisa?
Não, obrigado.
John o esperava em frente ao Instituto.
Setor 7 repetiu Paul, ao se aproximar do portão.
Sete?
Sim. Por quê?
Nada.
John, você está me escondendo alguma coisa?
Setor 7, Paul, é onde fica o quarto do nosso amigo. começou a rir.
É mesmo? Mas por que está rindo? Acha que eu estou com medo daquela estória ridícula?
Espero que não. Pois sabe que dia será amanhã?
Sei. Dia dez.
De...?
Outubro. Hei! Eu já vi isso an...
Em que ano estamos, Paul?
Mil, novecentos e noventa e seis.
Paul ficou pensativo.
Droga! Então quer dizer que...
É isso aí, Paul. Amanhã é exatamente o décimo dia...do décimo mês...do décimo ano. O dia do acerto de contas. Mas....como não passa de uma estória ridícula, não terá com o que se preocupar.
Conte esta estória pra outro, meu amigo. Nessa pegadinha eu não caio.
A noite não foi nada boa para Paul. Custou a dormir. Aquela estória não lhe saía da cabeça. Principalmente por ainda haver um personagem vivo: Irwin. Após virar-se e revirar-se centenas de vezes em sua cama, Paul, finalmente conseguiu dormir. Eram 4 horas da madrugada quando isso aconteceu. Mas mesmo dormindo, não teve a paz desejada. Teve seguidos pesadelos. Todos parecidos. Todos aterrorizantes. Os cenários eram sempre os mesmos; grotescos e aterradores. O enredo também não mudava muito; morticínio. E as personagens eram sempre criaturas horríveis. Juntos, fizeram de seu sono um verdadeiro inferno.
Ao contrário da noite, a manhã e a tarde passaram voando como um foguete, dando lugar à noite. O plantão de Paul estava para começar.
Paul Estava apreensivo. Ao passar pela secretaria recebeu a agenda a cumprir, com todos os horários dos remédios dos pacientes e demais tarefas. Sentiu um leve calafrio ao ver que Irwin fazia parte da lista. O enfermeiro do setor 6 acompanhou-lhe até o local.
É o seu primeiro dia no plantão? perguntou Joe, o enfermeiro do setor 6.
Sim.
Bom.....bem-vindo ao inferno.
O que quis dizer com isso? Paul estava assustado.
Chegaram à porta do setor 7.
Entre e verá. Bom plantão para você.
Igualmente.
Joe voltou para o seu posto.
Ao entrar no seu novo local de trabalho entendeu porque Joe o chamava de inferno. Ali dentro fazia um calor infernal. A sala era apertada, tinha mais armários do que espaço vago. Uma pia suja, uma cadeira, uma mesinha com uma garrafa de café e algumas revistas velhas completavam o triste cenário.
Seu relógio de pulso o avisava com um bip: a primeira hora passara. Eram 9 horas. Nesta primeira hora, Paul tentou ler algumas revistas. Mas não conseguia. Sua mente voltava-se sempre a outros pensamentos: será que a coisa viria? Às 9:30h, foi ao quarto 25 e acordou o paciente do leito 51. Deu-lhe uma colherada do seu remédio. Após tomá-lo, o paciente arregalou os olhos, assustado, apontou para a porta e disse:
Olhe! Um monstro!
Ainda mais assustado, Paul virou-se e olhou para a porta. Havia apenas uma comprida lagartixa. Paul sorriu, aliviado.
O senhor não vai matar o monstro? disse o paciente.
Acalme-se. Este monstro é inofensivo.
O senhor promete, Dr?
Claro! Agora volte a dormir.
Doutor. Paul gostou de ser chamado de doutor.
O paciente acalmou-se. O remédio era mesmo forte. Paul cobriu-o com o lençol. Saiu e tornou a fechar a porta. A temperatura do corredor estava bem mais alta do que a do quarto.
Acho que mais alguns dias e eu acabarei internado também. disse Paul tirando o suor do rosto.
Às 10:25h, alguém apareceu à porta. Era Joe.
Bom...vejo que ainda não assou.
Ainda não. Mas acho que não falta muito. Como é quente aqui!
Sim. E no frio, parece a Antártida. Droga de emprego.
Está precisando de algo?
Não. Vim ver como está se saindo.
Fora o calor, bem.
Então, deixe-me voltar. Se precisar de alguma coisa basta me avisar. Ok?
Certo.
Joe era homossexual. Paul percebera logo de cara.
Os minutos iam passando e a tensão e a apreensão iam tomando conta de Paul. O ritmo de seu coração aumentava de cinco em cinco minutos. Paul não sabia mais se transpirava de calor ou de pavor. Bom...provavelmente por ambos, pois o calor estava insuportável.
Eram 11 horas, avisou-lhe o bip do relógio. E nada mudara. As lâmpadas continuavam acesas. As paredes eram as mesmas. As portas eram as mesmas. Nada mudara. A não ser o que estava do outro lado de uma das portas. Seria Joe novamente? Não. Era uma morena, com os cabelos negros bem curtos. O coração de Paul quase saiu pela boca. Suava mais do que nunca. Joe apareceu na janelinha da porta e deu duas leves batidas. Tremendo, Paul levantou-se e abriu a porta. Além de Joe e da mulher, havia duas garotinhas. Ao vê-las, algo veio à lembrança de Paul: a garotinha que se transformara na criatura e atacara Bill. Olhou-as apavorado.
Tome vergonha nesta cara, seu idiota! pensou Paul consigo mesmo. Assustado com uma estória ridícula! O velhote conseguiu mesmo fazer você borrar as calças, não é? Pois controle-se!
Você está bem, Paul? disse Joe.
Após tomar fôlego:
Sim, está tudo bem.
Paul, esta é a Srª Susan. Susan Soyer. disse Joe.
Boa noite. disse Paul.
Boa noite.
Paul, ela tem uma autorização do Diretor para fazer uma visita ao seu marido, Sr. Soyer. Irwin Soyer.
Visita? Há esta hora?.
Não tenho como visitá-lo durante o dia, por isso eu consegui uma autorização para fazê-lo à noite. ela mostrou o bilhete a Paul.
Paul apenas passou os olhos rapidamente sobre ele. Paul sabia que essa visita às 11 horas tinha algo de estranho. Muito estranho. Mas sabia também que não poderia impedir.
Desculpe-me, senhora. Hoje é o meu primeiro dia de plantão. Entre.
Sem problema. disse ela amavelmente.
Quando Susan entrou suas filhas tentaram acompanhá-la, mas Joe as impediu. Elas começaram a chorar.
Calma, eu acho que o tio tem algumas balas. disse Joe. Quem vai querer?
Eu Não! responderam.
Não?
Michelly! Karen! Parem de fazer birra! gritou Susan.
Elas se acalmaram. E Joe conseguiu levá-las. Paul fechou a porta.
São lindas disse Paul.
São, sim.
Paul abriu a porta do quarto 26, onde dormia Irwin. Susan entrou e deixou a porta entreaberta. Não acendeu a luz. Paul sentou-se num banco do corredor. Estava muito assustado. E ao mesmo tempo curioso. Será Susan um disfarce da criatura? Paul ia se irritando cada vez mais consigo por ter estes pensamentos.
De repente aparece alguém à porta, era Joe novamente.
Paul, você viu se algum desses quartos possui um pacote de algodão? Um dos meus pacientes se feriu.
Acho que vi um naquele quarto. apontou para o quarto 26. Mas, por favor, não me peça para entrar lá.
Por quê?
Apenas não me peça.
Joe entrou no quarto e começou a mexer nas gavetas.
Com licença, disse ele a Susan preciso de algodão.
Tudo bem.
De repente Joe começou a abrir as gavetas violentamente. Parecia enlouquecido.
Algum problema, enfermeiro? perguntou Susan.
Joe começou a jogar longe tudo o que encontrava nas gavetas. Susan ficou assustada e gritou. O coração de Paul quase saiu pela boca ao ouvi-lo.
Mas que diabos está acontecendo? pensou Paul em voz alta. Seu corpo todo tremia.
O quarto estava na escuridão. Susan estava abraçada a Irwin. Os outros pacientes acordaram e começaram a falar coisas desconexas. Paul surgiu à porta e procurava pelo interruptor, que insistia em não aparecer. Algo no quarto emitia um cheiro insuportável, mas não vinha de nenhum paciente. Aquele cheiro não era humano.
De repente uma luz intensa tomou conta do quarto. Paul achara o interruptor? Não. Não fora Paul. Era Joe.
Cumpri seu desejo, Irwin. Agora você vai satisfazer o meu. Tenho fome.
Sua bruxa maldita! gritou Irwin. Vamos! Mate-me de uma vez. É o meu sangue que você quer, não é?
O que está acontecendo, Irwin? disse Susan chorando.
Paul estava paralisado de medo. Seus olhos tão arregalados davam a impressão de que saltariam para longe.
Saia daqui, Susan. Você não precisa ver isso.
A criatura começou a tomar sua verdadeira forma, abandonando o corpo do pobre enfermeiro.
Deixe-a, Irwin. Quero que ela veja algo. Disse a criatura, abrindo um longo sorriso.
Paul olhava apavorado. Seus ossos e músculos não conseguiam se mover nem um milímetro. Tentou sair corredor-a-dentro. Mas não conseguiria, pois a cena mais horrível de toda a sua vida surgira. Havia algo no corredor. Vinha em direção ao quarto.
Jesus Cristo! gritou Paul.
Eram Michelly e Karen. Transformaram-se em criaturas horríveis. Mantinham a mesma estatura de quando crianças. Mas os cabelos caíram quase todos. Seus olhos eram saltados para fora. Não possuíam nariz, mas sim duas pequenas fendas. Seus dentes eram negros e afiados como os de um crocodilo. Tinham a pele toda apodrecida como múmias. Suas roupas não passavam de pequenos trapos sobre seus corpos fétidos.
Paul não suportou aquela imagem e vomitou.
Sua criatura do inferno! disse Irwin O que fez com minhas filhas?!
Veja você mesmo. a criatura apontou para a porta.
As duas estavam ali. Ao vê-las, Susan teve um ataque de nervos.
Karen! Michelly! gritou Susan, e desmaiou sobre Irwin.
Susan! Oh, meu Deus. Por quê? disse Irwin olhando a criatura Sou eu que você quer, não é?
A criatura disse-lhe algo em uma língua desconhecida.
Irwin nunca sentira tanto ódio como sentiu naquele momento.
Vamos acabar logo com isso. disse a criatura Estou faminta.
Neste momento, as duas monstruosidades começaram a se dirigir à cama de Irwin. Andavam desajeitadamente. Perderam totalmente o sentimento e os movimentos humanos.
Não! Não! gritava Irwin. Por favor, não!
As duas pequenas criaturas avançaram sobre o corpo de Irwin como leões avançam sobre Gnus.
Bons garotos. sussurrou a criatura. Seu olhar continha o sentimento mais puro do prazer. Nem múltiplos orgasmos não conseguiriam proporcionar aquele olhar.
Paul não conseguia olhar para aquela tórrida cena. Mas não conseguia correr idem. A única coisa a fazer naquele momento foi fechar os olhos e rezar pra que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo.
Paul acorda.
Não! Não! grita ele, todo suado.
Abre os olhos e a escuridão continua. A cama lhe dá uma sensação muito agradável.
Onde estou? tenta olhar para alguma coisa, mas a escuridão é total. Oh, meu Deus, a criatura.... era apenas um sonho!
Abrira um sorriso como nunca fizera em toda a sua vida.
Puxa, foi o pesadelo mais real que já tive.
Tentou levantar da cama, mas não conseguiu Estava preso por algemas.
Mas que diabos é...
A luz do quarto foi acesa e um batalhão de pessoas com câmeras fotográficas e microfones invadiram o quarto. Dezenas de vozes vinham de todos os lados perguntando-lhe:
O que você tem a declarar?
Quantos você já matou?
Você faz parte de alguma seita satânica?
Como faz para beber todo o sangue dos corpos?
Você é fã de Hannibal?
Não fora um pesadelo.
Oh, meu Deus, não! gritou Paul. NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO.
Fim
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